CAPÍTULO 2
Café, Coragem e Recomeços
A porta do Café Aurora
Depois de três horas de estrada, Helena chegou à cidade natal no fim de uma tarde chuvosa e fria. O ônibus a deixou perto da praça central, e dali seguiu a pé, a mala arrastando pelo calçamento molhado, até a rua onde ficava o Café Aurora.
Parou do outro lado da rua e ficou olhando. A porta fechada, a placa desbotada balançando de leve com o vento, as janelas cobertas de poeira. Nada parecia com as lembranças que guardava de criança, sentada no balcão enquanto a avó preparava café.
Atravessou a rua devagar. Com a mão tremendo um pouco, encaixou a chave na fechadura e girou.
A maçaneta resistiu por um segundo, emperrada, antes de ceder. A porta se abriu com um gemido longo, como se também estivesse acordando depois de muito tempo.
Helena parou na entrada e observou o salão. As mesas e cadeiras antigas, cobertas por um véu fino de poeira. A máquina de café, silenciosa. Os quadros tortos na parede. E, no fundo, um mural inteiro coberto de bilhetes — dezenas deles, amarelados, com letras diferentes, frases que ela não conseguia ler dali.
Uma mistura estranha tomou conta dela: parte saudade, parte vontade de sair correndo.
“Será que dou conta disso?”, pensou, em voz baixa, quase sem perceber que tinha falado.
Tum, tum, tum.
Alguém batia na porta atrás dela.
Helena se virou e encontrou uma mulher de cabelos brancos, envolta num casaco de lã, olhando para dentro com os olhos arregalados de surpresa.
— Helena? É você mesmo?
Levou um segundo para reconhecer o rosto. Sra. Sílvia — amiga de longa data da avó, sempre presente nos domingos de infância no café.
— Sra. Sílvia! — Helena sentiu um nó na garganta, mas conseguiu sorrir.
A mulher não pediu licença: entrou e a abraçou forte, como se estivesse abraçando um pedaço da própria dona Lígia.
— Deixa eu te olhar direito — disse, afastando-se só um pouco, as mãos ainda nos ombros de Helena. — Você voltou pra reabrir isso aqui?
— Estou pensando nisso — respondeu Helena, sem muita certeza na voz.
— “Pensando”? — Sra. Sílvia riu, balançando a cabeça. — Menina, esse café já foi o coração dessa rua. Todo mundo vinha aqui. Sua avó ia se orgulhar de te ver atrás do balcão de novo.
— Vamos ver… — Helena passou os olhos pelo salão de novo. — Ainda preciso entender o tamanho do estrago antes de prometer qualquer coisa.
Ainda assim, alguma coisa dentro dela relaxou um pouco. Não estava sozinha ali, afinal. Ainda existiam pessoas naquela cidade que se lembravam dela, e da avó, e do que aquele lugar tinha sido.
Foi então que percebeu que Sra. Sílvia tinha parado de falar. A mulher olhava fixo para o mural de bilhetes, um sorriso diferente no rosto — mais quieto, mais guardado.
— Sabia que sua avó deixou um bilhete pra você, ali no mural? — disse, baixinho. — Escondido atrás dos outros. Ela me fez prometer: só te contar quando você voltasse pra cá.
O estômago de Helena revirou.
Sem dizer nada, atravessou o salão até o mural e começou a procurar, com as mãos ansiosas, o que a avó tinha deixado escondido ali para ela encontrar.
Capítulo 03
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